quinta-feira, 23 de junho de 2011

Artigo: SIMETRIA NO UNIVERSO NATURISTA

Parece que o ser humano sempre teve a necessidade de acreditar em algo além de si mesmo, deus sol, deus lua são alguns exemplos. Mudar as crenças sempre exigirá um esforço adicional porque os conceitos, que vêm de outras gerações, são considerados verdadeiros e não são discutidos até mesmo por comodismo, podemos ser julgados como revolucionários, rebeldes, ou loucos.

A simetria faz parte do nosso cotidiano, estamos cercados de objetos simétricos: cadeiras, mesas, telefones. Certamente existe a beleza, mas mesmo dentro do conceito científico, beleza não é fácil de ser definida (Criação Imperfeita de Marcelo Glaiser) e do conceito filosófico também existe muita discordância (Evando Nascimento, Revista Filosofia nº 46).

A crença de que tudo o que é simétrico é belo, e toda beleza é divina, forçou os indivíduos acreditarem que a beleza é essencial para ser uma criação de Deus porque jamais um ser perfeito faria algo imperfeito. Como disse o poeta Vinícius de Moraes “Me desculpem as feias, mas a beleza é fundamental”. Um grave deslize, nem mesmo a metade do nosso rosto é igual à outra. Isso nos remete às seguintes conclusões:

- Nem tudo o que belo é verdadeiro

- A simetria na nossa natureza na verdade não existe

- O que é belo depende do modo como vemos, é individual.

As maiores descobertas científicas e o desenvolvimento de fórmulas matemáticas foram originados nas observações da natureza. Estamos ainda na busca de novos conhecimentos, os cientistas reconhecem que ainda temos muito para aprender, sabemos muito pouco das nossas origens, tudo não passa de suposições e teorias, mas temos a informação que o universo não é perfeito e também não é simétrico.

O interessante é que a mesma conclusão dos cientistas pode ser dita quanto ao universo naturista, não é perfeito e muito menos simétrico. Por isso, para o naturismo não importa se é gordo ou magro, alto ou baixo, preto ou branco, não importa a religião que professa, as opções sexuais, as ideologias políticas, nem o modelo econômico que cada um defende. É dentro desse pensamento que o movimento naturista se sustenta, com respeito às individualidades de cada um. É pelo exercício da nudez que será possível jogar os lixos mentais para fora.

A filosofia naturista é igualitária, defende a harmonia de todas as diferenças, não suporta as guerras porque é pacífica, nem a escravidão porque é apoiada na liberdade, valores que o tempo não mudam. Já vimos muito na história humana atos bárbaros que não trouxeram nenhuma dignidade em pertencer a esta espécie, e não desejamos que fatos passados se repitam, já temos muitos arrependimentos, precisamos criar uma sociedade mais justa e mais humana, com a consciência das nossas imperfeições.

Por esse motivo sempre faço a sugestão de não misturarem as sintonias, religião não tem nada a ver com naturismo, Adão e Eva não eram naturistas da mesma forma que os nossos índios também não eram, a filosofia naturista surgiu por volta de 1903 com intuito de reintegrar o homem à sua natureza. Mas parece que muitos ainda insistem em misturar conceitos. Porque será? Porque é difícil mudar as crenças. Não se pode querer justificar a nudez com base na fé religiosa, nada a ver, no máximo poderá inspirar aos praticantes do nudismo um contato mais íntimo com a sua espiritualidade, e só.

Fomos induzidos a pensar sobre o corpo de uma forma errada; não pode ser visto naturalmente porque se tornou corpo-pecado, algo que tem que ficar escondido. E assim ficamos distantes da nossa própria natureza e é onde se observa as origens de muitos desvios sociais.

Precisamos criar argumentos, muitos argumentos, que possam mostrar a riqueza da filosofia naturista e que só serão obtidos por meio do conhecimento e dos exemplos que podemos dar de amizade e respeito. Mesmo com esse conhecimento temos que admitir nossa ignorância sobre o universo. Como disse Sócrates: “Quanto maior a sabedoria, mais óbvia deve ser a dimensão da nossa ignorância.” Temos muito o que aprender com as imperfeições do mundo natural.

Marcelo Gleiser sugere: “Não seria a hora de celebrarmos um tipo diferente de beleza, inspirado nas imperfeições da Natureza em vez das suas supostas perfeições?” Creio que sim, mas temos que evoluir culturalmente e sermos ousados em mudar as nossas crenças de corpo-perfeito, corpo-pecado e não esquecermos da nossa própria realidade como seres naturais, imperfeitos e assimétricos.

A Natureza é bela por ser imperfeita e por ser assim é que estamos todos aqui, e será com atitudes de respeito para com todos os seres que se fará a grande diferença na história da humanidade.

Evandro Telles

www.evandrotelles.blogspot.com

23/09/10